terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"Olhos da cidade, caminhos da almas" - exposição fotográfica de António Moreira







Inicialmente o objetivo era apenas fotografar janelas e portas portuguesas, achar uma presença portuguesa nos lugares por onde vivia. Isso porque, nascido em uma ex-colônia portuguesa, eu precisava com urgência, preencher um espaço interior que se encontrava carente. Aflorava a necessidade, como imigrante, de fazer a ponte entre o meu passado completamente perdido, a Angola da minha infância e adolescência não existe mais.














E a realidade num novo país através do traço comum da colonização portuguesa. Buscar uma referência no meu passado e achar uma raiz numa sociedade nova e ainda sem marcas na minha história pessoal. Essa observação inicial transcendeu o aspecto histórico, se estendeu a outras janelas e outras portas. Me chamou a atenção as cores, as formas e a criatividade que se coloca nas fachadas das casas. Então este caminho passou a se revelar uma via de mão dupla. De simples observador, passei a observado também.














Todas as janelas e portas eram como que os OLHOS DAS CIDADES, por onde passava, Curitiba, Antonina, Morretes, Paranaguá, Lapa, Florianópolis e Laguna. Tal qual os nossos olhos se revelam como JANELAS DA ALMA, assim aquelas portas e janelas com suas características próprias, suas cores, seus matizes, sua arte, sua estética estavam ali a me desafiar. A me contemplar, elas me instigavam a descobrir os CAMINHOS DAS ALMAS de quem as concebeu e que se escondem e revelam atrás e através delas. Nesse momento aconteceu o processo da volta, a jornada de retorno.






Ao desvendar os mistérios externos que se escondiam por trás daquelas janelas, também se me colocava o desafio maior da descoberta interna, de criar um caminho para a minha criatividade, de achar uma estética para a minha arte, de fazer uma ponte entre o meu presente e o meu passado perdido, enfim, de achar o difícil CAMINHO DA MINHA ALMA, eu estava me descobrindo assim como me descubro e revelo através destas imagens.











Esta mostra é dedicada a meu pai, António Augusto Guimarães Moreira, um visionário que há 25 anos atrás me incentivou a comprar o meu primeiro equipamento fotográfico






Texto e imagens fazem parte da exposição "Olhos da cidade, caminhos da alma", por António Albano Baptista Moreira.

As obras foram expostas em Curitiba, em abril de 2000.

Para saber mais, http://antonioabmoreira.adm.br/nicomoreira/

(Curitiba)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Do Porquê Freud Não Estar De Todo Errado

A menina se formava no pré-II. Foi escolhida para ser oradora da turma no ato solene de formatura. Difícil saber o que uma menina de seis anos falaria num discurso de formatura. Pior ainda é o uso da palavra ao ato de passagem para a nebulosa primeira série. Mas essas questões não vêm ao caso. O que importa é que a menina fantasiava mundos fantásticos sobre a noite. O que seria uma formatura? Apesar de não saber dizer formatura é isso e aquilo, a menina já tinha preenchido bem a palavra na sua vida. Era algo muito grande, em que acontecem coisas de sonhos, com tudo simultaneamente colorido e brilhante, mais que o gel gliter que a cabeleireira Irene passou nos seus cabelos, para ficasse à altura do que é tão grande. Mas o mundo é injusto. Até para os pequenos. O dentão de cima e da frente lhe cai dias antes do evento. Nem preciso dizer que a menina fica com um enorme buraco na boquinha. Tristeza fina e funda, que dá dor em cima da barriga e ganas de desistir. Para se consolar, a menina abraçava junto seu cachorro filhote e balançava bastante com ele no Bandeirante, pra longe de bocas desdentadas. Não adiantou explicar que era um dente de leite. Mesmo que fosse de chocolate, a menina nunca perdoaria o maldito que lhe faltou bem no momento do tão grande. Ela tinha esse veredito muito firme e claro. Por maior que seja a dor, ainda é preciso viver. Ela se arrumou com ela mesma e inventou o jeito. A formatura era evento tão importante que foi antecedida por um jantar no Pinheiral. Melhor macarronada do mundo, e feita por japoneses. A menina se esbaldou com o vermelho, o suficiente para esquecer da ausência que carregava. Na noite do grande, estava um jasmim. Que susto ao perceber que já sabia como tudo iria acontecer, até nos detalhes furta-cor, nas danças frenéticas dos amiguinhos, na euforia de estar num palco tão mais alto que toda a cidade atônita. Mas, a maior alegria da menina, maior até que o palco, era estar cumprindo à risca a regra de ouro de como esconder a sua falta. Assim ela pensava, a pobre. Foi só meses depois, quando chegou o álbum da formatura, que todo o orgulho volveu-se espelho esfarelado. Em meio a tantos lábios comprimidos para ocultar a solidão, a menina, a macarronada e seu vazio, tudo junto dentro da boca. Era tão vermelho, tanta boca aberta e tamanho vazio. Inspira expira síncope. Não bastasse essa nojeira, veio o golpe fatal na auto-estima: toda a família enfileirada em pé e, sozinha na linha da frente, a menina, com olhos para cima de contemplação e um sorriso-ventania. Era só a janela. Espaço que, de tão intenso, fez-se duro pelo resto dos instantes seguintes da pequena existência.

Anaê Matsushita Veronezi diz que não é escritora, mas eu digo que ela é. Pode ser encontrada em alguma ladeira de Santa Teresa ou dentro de algum livro da Clarice.
(Rio de Janeiro - Santa Teresa)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Janelas casadoiras

Quis o Destino, Deus – talvez ambos sejam o mesmo Ser – ou ninguém desejou e o que temos é uma mera coincidência, mas o fato é que as quatro moças casadoiras moravam lado a lado. Seus respectivos lares formavam um quadrado. No número 18 encontrava-se Flor. Ao seu lado, no 20, habitava Luciana. Em frente a Flor, no 21, residia Ludmila e na morada ao lado, número 23, ficavam os belos lábios de Maria Eduarda.
Flor tinha pele morena. Quando falo morena quero dizer morena mesmo. É bom esclarecer este ponto, pois há algum tempo passou-se a utilizar a palavra “morena” para definir mulata ou negra. Estranho. Contudo, não me submeterei a tal reducionismo lingüístico. O maior atrativo de Flor eram suas ancas. Não que seus seios fossem desprezíveis ou seu rosto fosse feio. De forma alguma. Mas as ancas ofuscavam os demais atributos. Também não pretendo insinuar que os seios ou a face fossem algo de especial. Não. Não eram atraentes nem repugnantes. Eram simplesmente... ok.
Assim como o traseiro de Luciana. Sem prejudicar, a derrier de Lu tampouco a ajudava. Serei claro em poucas palavras, aproveitando a descrição de Flor para resumir a vizinha à sua esquerda: as mamas de Luciana estavam para seu traseiro assim como as nádegas de Flor estavam para seus seios, ou seja, o que uma tinha de bom em cima a outra o possuía embaixo. Juntasse as duas numa só... que piteuzinho.
Maria Eduarda tinha como principal atrativo lábios rosados e rosto de boneca. Eram lábios meigos. Lábios de senhorinha. Lábios de afago. Lábios de estrela pornô. Ah sim, de estrela pornô. Por favor, não veja qualquer contradição em minhas palavras. É notória a excitação que mulheres de aparência virginal, mas com grande libido, provoca nos homens. É velho o fetiche da colegial. Pois lá ficava Duda, em sua janela, mostrando à audiência rosto de donzela, róseos e relativamente acolchoados lábios, com seu olhar lânguido e simultaneamente sonso, provocando suspiros. Apaixonados nos ingênuos, de lamento por desejo não realizado nos tarados.
Ludmila... bem, Ludmila... era Ludmila. Nenhum atrativo. Não era feia tampouco. Talvez melhor se o fosse, pois assim se destacaria de alguma forma. Mas sequer isso. A típica pessoa que se mistura à multidão. Uma sem graça. Nada, absolutamente nada na sua aparência a ser ressaltado.
Essas eram as moças casadoiras que se debruçavam nas janelas de suas respectivas casas, disputando a atenção dos solteiros e viúvos precoces que por lá passavam. Não se fale em divorciado. Desquitado naquele lugar nos tempos em que se desenvolve esta história era um malogrado. Se um casamento fracassa o que são os nubentes senão fracassados? Raras exceções hão de ser relevadas, como no caso de Túlio, cuja esposa, mostrando ser depravada e indigna, praticamente uma mulher-dama, pediu-lhe que a penetrasse pela entrada de serviço. Mulher assim não serve para esposa. Muito boa, sem dúvida, para as necessárias diversões extraconjugais nos cabarés, mas jamais para se ter em casa, de aliança no anular esquerdo.
A competição sempre se deu de forma discreta e tácita. Nada de grandes atrevimentos, até porque moças sérias não são dadas a tal. Além disso, normalmente o potencial noivo escolhia uma delas logo após a primeira caminhada e se plantava debaixo de sua janela. Diferente, entretanto, ocorreu com Eduardo, que Maria Eduarda argumentava ser xará, o que a colocava em posição de vantagem, afinal, ela tinha alguma coisa em comum com o galã. Alegava que o fato de “Maria” acompanhar “Eduarda” não lhe tirava o parentesco de nome, afinal, ninguém deixa de ser xará de outro por ter sobrenome diferente. Por que a regra seria diversa quando se refere a um pré-prenome? Primeiro nome descartável, aliás, afinal, de que serve “Maria”? Ninguém é “Maria”. Toda Maria Fulana é conhecida como Fulana ou tem um apelido que deriva do segundo nome, assim como Duda.
Vamos às virtudes de Eduardo: empreendedorismo que o levou a tornar-se rico aos vinte e dois anos, deixando para trás um passado de classe média baixa que seu pai lhe legara; juventude; beleza; arrogância na correta medida.
A citada arrogância se confundia com uma certa malandragem, também bem temperada, no grau do romantismo. Seria, entretanto, o suficiente para que as mães o esconjurassem não fosse ele bem sucedido comerciante. Mas as filhas apenas se encantavam com aquele jeito matreiro, deixando-se muitas vezes enganar com prazer. Acima do ciúme que cada uma das quatro sentia das outras, por terem que dividir os cortejos de Eduardo, prevalecia a vontade de ser a melhor, a conquistadora, a vencedora. O orgulho subjugava o ciúme. Neste ponto não havia sequer contenda, mas completa submissão de um sentimento a outro. Maior do que a raiva que Eduardo causava ao sair de uma janela, onde acabara de entregar um belo regalo, para deixar outro na casa em frente, era a sede de vitória. Vitória. Vitória era o fim. Quais os legítimos meios para alcançá-la? (Nenhum, respondeu Dona Vitória, respeitável senhora que nada tem a ver com a trama)
Regras sociais são normalmente nebulosas. Até onde se pode avançar na busca por um fim? O que diferencia uma moça determinada de uma oferecida? Onde, afinal? Onde reside a fronteira?
Seja onde for a cerca foi aos poucos sendo deslocada pelas quatro vizinhas. As mutações lentas não são claras e percebidas, então sequer a consciência de qualquer delas gritou. Também se quedou silente a vizinhança, incapaz de notar aquele aumento paulatino no nível de oferecimento por parte das quatro donzelas. Precisou um forasteiro passar por lá e narrar-me o que viu, pois caso contrário os atos descarados passariam despercebidos. Pois, então, conto-lhe, prezado leitor, o nível de baixeza moral alcançado pelas casadoiras, beirando a ignomínia. Espero não chocá-lo.
Maria Eduarda foi a primeira a ultrapassar o limite do tolerável e borrar sua boca com grossos batons vermelhos. Em plena luz do dia, uma moça que se diz direita desonra a família expondo seus belos lábios na sacada, tingidos por batom típico de mulher da vida.
Vendo o efeito provocado por aquele utensílio, Maria Eduarda não se fez de rogada e logo lançou mão de sua maior arma. Para tal, ao contrário da vizinha, não acrescentou, apenas tirou. Reduziu consideravelmente a quantidade de pano de sua roupa, passando a exibir abundantes decotes. Para completar a (confesso, deliciosa) cena de depravação, apoiava os seios no parapeito, fazendo com que eles se acumulassem na extremidade do degolo. Uma descaração. E um desbunde!
Seguindo a mesma trilha, Flor largou a discrição de lado. Passou a fazer algo que não era possível dizer que fosse por acaso, tornando inviável sonegar ardente interesse no rapaz, e tornou a guerra virtualmente declarada. Passou a subir num banquinho junto à janela para bem expor suas ancas. Seria uma cena ridícula, não fosse tão bela a carne, uma mulher com a cabeça tocando a parte superior da janela e os quadris dois palmos acima do parapeito.
Ludmila, sem destaque ou atrativo, assistiu passiva a escalada de ousadia de suas rivais. Após alguns dias matutando chegou à conclusão de que, se a tela era desinteressante, cabia-lhe caprichar na moldura. Enfeitou, então, sua janela. Leves e coloridos lenços de seda, ornados com argolas prateadas, passaram a cercar o busto de Ludmila. Eduardo, interessado, perguntou-lhe sobre detalhes da decoração e pediu-lhe a mão. Das quatro concorrentes, a senhorita do 21 foi a única que externalizou seu interior. Ao enfeitar a janela o fez em companhia dos seus valores, seus gostos, suas preferências. Através de ação ela permitiu que sua essência se manifestasse. Foi o único momento em que qualquer daquelas meninas fez isso. As rígidas normas sociais que vigoravam não permitiam que sequer nos diálogos as casadoiras expusessem seus desejos e frustrações. Moça direita não se abre com um fulano que apareça em sua janela, mesmo que interessante, pois ainda assim ainda é um fulano na janela. Aliás, moça direita esconde os dentes, recatada, pouco fala. Pede a bênção ao pai pela manhã e beija a mão da mãe em boa noite. Janela em poucos momentos e de preferência de forma discreta e na ausência do pai. Mãe tolera por alguns minutos, mas pai atencioso não permite filha na janela. Pois, pouco falando e mais ouvindo e lançando comportados, porém interessados sorrisos, donzela não expõe suas entranhas aos pretendentes, que só vão conhecê-las com a convivência pós-casamento. Entretanto, Ludmila o fez. E fez muito bem, pois realizado em perfeita consonância com a etiqueta. Sem qualquer ato desabonador, que fosse de encontro ao necessário recato, a moça mostrou ao pretendente que tinha muitos atrativos, mas estavam escondidos sob aquela couraça sem sal que a envolvia. As demais, entretanto, apenas continuaram exibindo - com maior ênfase, não se negue - já conhecidas virtudes físicas, ou seja, naquele momento em que a rixa acirrou-se foram incapazes de apresentar algo novo, uma surpresa qualquer.
Seis meses depois Ludmila e Eduardo casaram-se e naquela janela nada mais se viu. Apenas se ouvia, caso se passasse bem em frente, prazerosos ruídos. Flor passou a roer a unha.

Colaborador:
Renato Amado é escritor, autor do romance Vale do Rio Preto.Publicou os contos "O Flaneur" e "Amor" respectivamente nas antologias "Humano, Humano Demais" e "Agreste Utopia". Colaborador no livro de turismo ´Rio de Janeiro: uma visão elegante`
Sobre "Renato Amado": http://www.renatoamado.blogger.com.br/
Sobre "romance Vale do Rio Preto": http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=50 .
(Rio de Janeiro)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ficções - Janelas dos teus olhos

Teus olhos são janelas, sabe, e pelos vidros deles vê-se tudo que se passa aí dentro. Não consegues me enganar, mesmo quando os deixa fechados, ou quando os vidros ficam anuviados e embaçados. É que às vezes o calor fica denso aí dentro, mesmo quando está frio aqui fora, e dá vontade de pular aí para dentro para que possas me deixar em frente à lareira, o fogo queimando amarelado pelos teus olhos castanhos, as fagulhas saltando longe, queimando pequenas manchas escuras no tapete e as pontas dos meus dedos, que nessas horas percorrem teu cabelo em busca de onde possa me segurar, para ficar ali para sempre.







E foram tantas as vezes que encontrei teus olhos incandescentes de calor que achei que a lareira estaria acesa para mim para sempre, que tua boca seria sempre a porta de entrada para o mundo mágico que te pertence, e que eu poderia estar do lado de dentro dos vidros e enxergar por eles a realidade, e experimentar o gosto do mundo pela tua língua para sempre.







Não percebi que para sempre é uma medida de tempo, e como toda medida tem um começo e um meio e um fim, e acho que teu calor - talvez a luz dos teus olhos – era tão inebriante que me deixei levar, me deixei cegar e não vi (não quis ver?) o fim se aproximando, cercando tuas janelas, pairando sobre elas como uma nuvem de inverno tapando o sol, nevando aos poucos para dentro da chaminé até encharcar a lenha e apagar de vez qualquer chance de o fogo ser acendido novamente.







Não quis ver as luzes se apagando e as cortinas sendo puxadas lentamente para que eu não pudesse nunca mais ver o que se passa dentro dos teus olhos, para que eu não adivinhasse que o amor que tu emanavas estava chegando ao fim.













Teus olhos são janelas, sabe, mas a única coisa que consigo enxergar agora é o meu próprio reflexo nos vidros opacos, escuros, vazios. E o mundo que aprendi a ver pelos teus olhos, terei de desaprender, e minhas mãos terão de procurar outro lugar para se apoiar e descansar. E terei de experimentar todos os sabores de novo, treinar novamente o paladar, testar o que é bom e o que não é bom para mim, para o meu gosto, para as minhas vontades. E não importa o que aconteça, o mundo será a partir de então um lugar menos luminoso e menos aquecido pela falta que fará a luz dos teus olhos e o teu calor, para sempre, para mim.












Colaborador:

Texto e fotos de Cristina Moreira

http://www.overcomeyourfear.blogspot.com/

http://www.imagempordia.blogspot.com/

http://www.inventariodasdelicadezas.wordpress.com/

(Porto Alegre)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Uma janela na lata. Uma janela mágica.

Pinlux de Paula Biazus em Buenos Aires

Pinlux Rafael Johann - Dia Mundial da Pinhole

Pinlux Série Tripulantes

Aluna GHC fotografando

Aluna GHC Construindo Pinlux

Oficina da Vila do Campinho

Turma Oficina da Vila do Campinho

O grupo Lata Mágica completa 10 anos de ensino e pesquisa em fotografia pinhole neste ano de 2009. A idéia de realizar oficinas utilizando câmeras fotográficas construídas a partir de latas e sem a presença de lentes surgiu na Faculdade de Comunicação da UFRGS, pois um colega nosso, Guilherme Galarraga, havia aprendido a técnica com um artista alemão, Jochen Dietrich, em um curso no Instituto Goethe durante a I Bienal do Mercosul. Foi através da disciplina de Jornalismo Comunitário que concretizamos uma atividade com crianças moradoras do Jardim Planetário (comunidade vizinha à Faculdade) em que levamos latas já transformadas em câmeras e montamos um laboratório para revelação das imagens na creche local.
Após essa primeira oportunidade, que teve um caráter bem experimental pois não possuíamos formação como professores, começaram a surgir outros convites para reprodução da experiência. A possibilidade de transformar simples objetos do cotidiano em aparatos de construção de imagens fotográficas sempre despertou curiosidade e interesse nas pessoas. Os adultos chegavam a duvidar de tal possibilidade, já as crianças sempre tiveram maior facilidade em conviver com a idéia. A primeira oficina de maior duração ocorreu no Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação realizado na Unisinos em 2000, os participantes tiveram a oportunidade de construir suas câmeras, fotografar para obtenção do negativo e depois transformar o negativo em positivo, a cópia fotográfica. Até 2001, trabalhávamos em três pessoas, Paula Biazus, Maisa Del Frari e Guilherme Galarraga, quando se juntaram a nós Pedro Araújo e Rafael Johann.
A possibilidade de desmistificação do processo fotográfico permitido pela pinhole sempre foi uma das motivações do grupo. Nas oficinas, os participantes têm a possibilidade de acompanhar o processo fotográfico, desde o seu início, até chegar à cópia fotográfica final. A fotografia passa a ser um processo em que a construção da imagem está em evidência, a mágica se encontra na compreensão de um fenômeno físico simples, a câmera obscura, que permite transformar em imagens fotográficas a percepção da realidade em que vivemos.
Quando o grupo ficou completo, tivemos uma experiência de seis meses com crianças de uma comunidade de Porto Alegre, a Vila Nossa Senhora de Fátima, em que tivemos a oportunidade de realizar um grande laboratório sobre nossas oficinas. No ano de 2002, participamos pela primeira vez do Projeto Descentralização da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre e fomos contemplados com o FUMPROARTE para a realização de um projeto autoral, O Olhar Passageiro. Fotografamos diversos pontos da cidade e transformamos as imagens pinholes em adesivos colados nas janelas dos ônibus metropolitanos. Essas fotografias circularam por mais de seis meses na cidade em que foram obtidas convidando os passageiros a um novo olhar sobre lugares já vistos – link: www.latamagica.art.br/oolhar.
Entre os anos de 2004 e 2006 executamos um projeto chamado igualmente Lata Mágica (http://www.fotografia.ufrgs.br/latamagica/) que consistia na execução de quatro oficinas em bairros da cidade com duração de aproximadamente um mês cada, a realização de uma exposição no local, posteriormente a reunião das imagens em um catálogo e uma exposição final. Em 2007, tivemos a oportunidade de participar do Encontro sobre Inclusão Visual no Rio de Janeiro com a participação de projetos de todo o país e também de realizar uma oficina na I Semana de Fotografia do Recife. Atualmente, possuímos dois membros, Paula Biazus e Rafael Johann, e trabalhamos além da já tradicional foto na lata com uma técnica aprendida com Miguel Chikaoka, fotógrafo e educador de Belém do Pará, que se chama pinlux. Consiste em transformar uma caixa de fósforos em câmera e a utilização de negativo 35mm para a obtenção das imagens. A pesquisa nessa nova forma de fotografar já foi aplicada no Grupo Hospitalar Conceição durante o ano de 2008 em que trabalhamos com os funcionários do Centro de Atendimento Psicossocial. O nosso trabalho autoral, utilizando a pinlux, poderá ser visto no FestFoto 2009 (Festival de Fotografia de Porto Alegre).
Outros Links para trabalhos do grupo:
http://www.fotografia.ufrgs.br/port/05_portfolio/raf_johann/index.htm
http://www.fotografia.ufrgs.br/port/05_portfolio/aranha/index.htm
Colaboradores:
Paula Biazus é jornalista, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Mestre em Antropologia Social na mesma instituição. Fotografa desde 1996; fez parte da equipe do Núcleo de Fotografia da Fabico - Ufrgs de 1997 a 2008. Integra o Grupo Lata Mágica desde 1999; trabalhou no site http://www.foto.art.br/ entre os anos de 1999 e 2001, assim como na III Bienal de Artes Visuais do Mercosul em 2001. Entre 2003 e 2007, atuou como pesquisadora associada ao Banco de Imagens e Efeitos Visuais, grupo de pesquisa ligado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - UFRGS, como coordenadora do grupo de trabalho sobre coleções etnográficas em fotografia.
Rafael Johann é Bacharel em Artes Plásticas – ênfase em Fotografia pela UFRGS – e Licenciado em Artes Visuais pela mesma Universidade. Integrante do grupo Lata Mágica desde 2001. Integrou o Núcleo de Fotografia da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Social/UFRGS de 2001 a 2008, onde atuou na área de Monitoria, Projetos Especiais e Cursos de Extensão. Entre 2001 e 2004, trabalhou também na Produtora Independente de Cinema SENDERO. Dentre os Salões e Prêmios que já participou, destacam-se: Prêmio Chamex de Arte Jovem (São Paulo, abril de 2004), Festival Black & White (Porto, Portugal, Maio de 2005) e 16º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre (Setembro/Outubro de 2008).
(Porto Alegre)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Não é Big Brother, mas pode dar uma espiadinha



Então tá: o que é Janelas com maiúscula? O que é, além do plural de Abertura na parede de casa para dar luz e ar?
Sempre defino, quando tenho poucas linhas, que é um projeto de cartazes-literários meu e do meu amigo e poeta Everton Behenck. O Assis Brasil já disse uma vez que era guerrilha.
Acho que pra entender essas definições e chegar na sua própria, o melhor mesmo é contar um pouco da curta história dessa idéia. Foi lá pro meio de 2007 que ela apareceu em conversas minhas com o Everton sobre vontades e dificuldades (quase impossibilidades) de ver material nosso publicado. Quem é ou já foi jovem-autor-estreante deve saber bem desse sentimento. Pois nessas divagações ocorreu pra gente que, mais do que um livro, mais do que página de uma revista, nossa vontade era de chegar em mais leitores, seja lá como fosse. E, talvez porque os dois sejam publicitários, talvez porque cartaz aceite tudo, até show de pagode, um dia apareceu esse raciocínio “por que é que a gente não se publica aos poucos, uma página por vez, um cartaz mezzo ficção, mezzo poesia?
E poderia ter ficado na poesia e na ficção mesmo. Mas a conversa evoluiu, com direito a reflexões e cervejas sobre “pô, a música já teve vinil, cd, cassete, mp3 e sei lá mais o quê, por que é que a literatura tá sempre no mesmo suporte, o livro?” Bonito, né? Antes que a coisa virasse uma bela reflexão de bar, agitamos o diretor de arte Jacques Fernandes pra tocar a cara do projeto. Ele topou. Pronto, já tinha mais alguém comprometido com a história, alguém com quem ficaria chato se o projeto não fosse adiante.
Em paralelo, rolava a discussão do batismo desse filho. Nem sei se foi ao natural, mas Janelas era perfeito. Porque abriria espaços pra literatura e pra reflexão nas paredes, porque qualquer um pode espiar pra dentro da nossa obra, porque todo escritor é um pouco voyeur e quer se mostrar pro leitor. Nada melhor que Janelas.
Batizado, textos que coubessem escolhidos, bicho desenhado pelo Jacques, 200 cópias impressas, acho que isso foi em 17 de novembro de 2007. Fizemos um blogue pra registrar a história do projeto e começou o que eu acho que o Assis Brasil quis dizer com guerrilha: colar esses cartazes. Guerrilheiros bem municiados, não teve economia de bala, e saímos abrindo janela onde desse na telha: parede de bar, banheiro de bar, mural, banheiro, vitrine de livraria, na rua, em salão de cabeleireiro e provador de loja. E também teve janelas voadoras que não eram de avião. Na mala de amigos, nas nossas férias ou pelo correio, os cartazes foram pro interior do RS, pra São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, João Pessoa, Mato Grosso, Portugal e Inglaterra até onde eu me lembro. Sem falar das pessoas que abriram Janelas via internet. Teve gente conferindo o projeto na Hungria.
Bueno, como a gente nunca tinha feito coisa parecida ou conversado com quem já o tivesse realizado, pagamos, lógico, o preço de sermos pedreiros de primeira obra nessa história de abrir janelas. Explico: nas primeiras conversas sobre o projeto, eu e o Everton projetávamos novas edições a cada dois, três meses. Vai nessa. Tinha seis meses de Janelas e ainda tinha cartaz pra distribuir e colar por aí. Fora que a crise também bate nesse micro-segmento. Quando o Everton podia investir de novo, eu não. Vice-versa. Resultado disso é que tem gente que acha até que cerramos a história.
Nada disso.
A segunda edição está sendo desenhada nesse momento pelo designer Gabriel Not e logo, logo eu e o Everton – e quem mais quiser ajudar a colar – estaremos escancarando e nos exibindo em janelas por aí.
Aguardem e venham espiar.
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Saiba mais
Blogue do projeto: http://www.janelas-blog.blogspot.com/
Colaboradores:
Reginaldo Pujol Filho é redator publicitário e escritor. Autor do livro Azar do Personagem (Não Editora, 2007), também publicou contos em antologias, revistas e sites. Escreve colunas para os sites Cine Ronda e Vaia. Pra conhecer mais, visite http://www.naoeditora.com.br/, http://www.porcausadoselefantes.blogspot.com/.
Everton Behenck é redator publicitário, poeta e música. Mantém o blogue de poesia http://www.apesardoceu.wordpress.com/, publicou em antologias de concursos literários, jornais e revista. Está preparando para lançar Os Dentes da Delicadeza. Você também pode encontrar o Everton na noite portoalegrense tocando percussão na banda Cordão de Cor.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O olho é a janela da alma. O espelho do mundo – Leonardo da Vinci


Aludindo à frase do artista renascentista, João Jardim e Walter Carvalho chamaram o filme que lançaram em 2002 de "Janela da Alma". Um documentário de 73 minutos de duração, no qual entrevistam 19 pessoas com diferentes graus de deficiência visual. Míopes também, (João Jardim com 8 e Walter Carvalho com 7,5 graus), os diretores exploraram a forma “diferente” como os entrevistados veem o “mundo”, por causa da alteração ocular que possuem. Frisei o “diferente” e o “mundo” porque me saltou aos olhos o fato de que, o que poderia ser um simples encadeamento de relatos sobre as sensações visuais dos participantes, foi transformado em um dos filmes mais bonitos a que já assisti. O ver (ou não ver) “diferente” não se restringe ao o-que-se-enxerga, mas abarca o como-se-enxerga. O “mundo” não remete ao raso físico, mas ao profundo do metafísico. E aí, os primeiros mil pontos para os cineastas: a escolha dos entrevistados. O cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o vereador cego Arnaldo Godoy, o músico Hermeto Pascoal, o escritor José Saramago, a atriz alemã Hanna Schygulla, o poeta Manoel de Barros, a cineasta Agnès Varda, observam o que lhes rodea, através das suas janelas, com todas as cortinas, grades, persianas, impostas pela deficiência visual e alteradoras da paisagem que eles possuem da vida. A alma de cada um se debruça no parapeito e mostra o que de mais bonito e delicado tem, o visível e o invisível, o claro e o escuro. Mas o documentário continuaria um seqüência de relatos, não fosse a perspectiva dos executores da obra. As imagens, focadas, desfocadas, iluminadas, escuras (mais mil pontos para eles), o diálogo constante entre o enxergar e o ver, entre o ver e o não ver.
Estavam iluminados quando se animaram em fazer o filme.
Colaboradora: Leila de Souza Teixeira.
"Amadora" de contos.
"Fotógrafa" amadora.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Pode entrar. Fica à vontade.


Ao dar uma explicação do que pretende ser a REVISTA JANELA, não resisti ao lugar-comum de começar pela definição da palavra JANELA. Mais. Não resisti ao lugar-comum de iniciar pela definição que o dicionário contém sobre a palavra JANELA. Pretendia usar o verbete e, a partir dele, delinear o que esse blog pensa que JANELA é. Mas o dicionário acabou abrindo uma outra perspectiva sobre a JANELA. O conceito que procurava era um que remetesse a “enxergar pela janela de outra pessoa”, e essa “janela de outra pessoa” seria a VISÃO que essa pessoa tem de alguma coisa específica. O que encontrei foi diferente, e tive que reemoldurar minha explicação. Já na etimologia havia, “Do latim vulgar JANUELLA, diminutivo de JANUA, porta”. Então, a JANELA é uma portinha? Um vão por onde se passa para outro ambiente? E as mais de 20 definições do verbete confirmaram a descoberta: todas se referiam, em algum momento, em ABERTURA. Assim, foi preciso criar uma TERCEIRA JANELA, a nossa JANELA, que não é apenas ABERTURA, nem só PERSPECTIVA. É uma abersctiva ou uma perspectura. Ao mesmo tempo em que representa a óptica de alguém sobre o tema do mês, apresenta uma portinha pela qual o leitor entrará em um lugar diferente do lugar onde está.


O tema desse mês será JANELA, e, de 03 em 03 dias, uma pessoa diferente mostrará a sua JANELA.
Colaboradora: Leila de Souza Teixeira.
"Amadora" de contos.
"Fotógrafa" amadora.